Palavras

A palavra é chave na poesia
é sonoridade na passagem das imagens
são a cor das sombras, o tacto dos sentidos
nas longas passagens
aquilo que recordo, são apenas imagens
na perfeição do reflexo
sem as névoas das manhãs
o rio devolve as imagens
nessa água límpida e tão taciturna
o sopro lento da voz
dita os últimos sentidos
uma voz rouca que se arrasta
num murmúrio dormente
as sílabas são frutos misturadas em gomos
substituem o riso de uns lábios ausentes
ausentes de gosto, ausentes de carne
oh, alma! Deixa-me saborear esse gosto...
não renuncies a ti próprio
nem nesse olhar transparente que treme
ouso... ouso provar! Um pouco de "co"
um pouco de "ra", mais um pouco de "ção"
perde-te no sono, no exagero da visão
inventa a terna imagem de outras imagens
sobe as escadas... dá-me a tua mão!
Anda, vamos fazer deste quadro uma canção
de magias, de risos , duma memória presente
não deixo cair o sonho, visto-o com as tuas cores
fecho os olhos e... oiço as tuas imagens
que se soltam na ternura de um beijo
devoro o sabor doce da ilusão
e permaneces num delírio comum,
já não paro, já não quero parar
apenas viver cada imagem
inquieta-me a ternura da brisa
enquanto o feitiço perdura
os cristais de luar que sopras docemente
embriagam-me na noite de loucura
e os sons dilatam a derradeira palavra
o eco surge na revolta da aflição
o turbilhão de pixeis, de electrões
o turbilhão de imagens e corações
um sopro, num suspiro de amor
para continuar só
aqui entre o ontem e o amanhã
aqui onde as palavras...
são a sinfonia errada da escolha
culpamos a vontade!

Escrito em parceria com Helena Maltez